segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Cadência atrevida



por Luís César Padilha

Não vi apagar a luz que se acendeu para um dia. Flores e frutos em desordem com as cortinas do ocaso. A água se resumira em nuvens e os galhos desnutridos adormeciam entre pedras. Os pés carregaram a poeira. A sirene interrompeu o sonho.

As desestruturas não são abaladas pelas matrizes enferrujadas. Entre meus eus se vão histórias. Entre o passado e o futuro, encontro-me comigo em mais um eu. Não se impedem os desencontros. Não se afloram reencontros. As estruturas são novas.

Dentre as cotas da orbe, os reis querem a cidade. Dentre as angústias das flores, os reis querem a beleza. Dentre as fraquezas humanas, os reis querem riqueza. Dentre todas as coisas, os reis querem felicidade. Sei, sem ser rei, que a felicidade sorri.

O amargo não fere. A imponência do dia-a-dia é uma exigência do futuro. E o novo parece velho.

As trilhas são o distanciamento da sirene. Os sonhos não serão interrompidos.

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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Mal instável ronda nosso afastamento


por Marcelo Souza

Ela é caminho e canteiro
é cravo e seu cheiro,
é pedaço de paisagem, é poente inteiro.
Menina do sertão,
aquela que nunca antes
tivera visto tanto verde.
Encanta o vento que sopra maneiro,
que é companheiro em toda madrugada.
Feito avesso à revoada,
voou para o frio, suor e medo.
Em quais segredos que não foram feitas toadas,
perto dela as angústias parecem atenuadas,
tudo é santo e natural, eterno e ligeiro.

E até a água que representa vitalidade
Quis ser maior parte no seu ser,
ser mais vida no que já é vida,
reafirmando uma divindade elementar
e, diante dessa emoção,
a água foi-se, por desatenção,
pôr em seu órgão de pensar,
arriscando a razão de muita alegria,
sua existência, dádiva natural.

Assim, o que era apenas pedra no canteiro,
sente frio nos pés como quem perde um pedaço.
Sinto a culpa pois não te dei aquele abraço
E, mesmo se desse, jamais ele seria,
nem mesmo de longe, como um grande passo
de celebrar a novidade, esse desabafo
de estais viva mais esse dia.

Marcelo 10/11/2008

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

OS MENINOS BRINCAM


Olhava filhotes de porcos criados nas ruas. Eles brincavam. Não apresentam sinais de sofrimento. Parecem rir. Disseram-me que até mesmo inimigos naturais podem brincar quando são ainda filhotes - seria o caso do leão com o veado.

A essência da criança é o sorriso. O riso é sempre a face da criança. Mesmo que o momento não seja o melhor.

Os meninos brincam
(Luís César Padilha)

Só morrendo para descansar.
Sua sede aumenta em frente ao mar.
O céu estrelado nega a chuva,
Mais uma beleza atroz.
E os meninos brincam na poeira.

Tem lodo na lágrima e no suor
E a pela marcada pelo sol.
A velhice precoce aparenta fraqueza,
Engano do olhar que despreza o que for essência.
Com pau, com pedra e muita coragem,
Não foge se tem que lutar.
E os meninos brincam de herói.

Estão cumprindo toda a sua sina
Desafiados pela própria vida.
Amam o solo que só é umedecido
Por sereno suor e lágrima,
Sem parar de cantar.
A fome e a sede, repete-se a história,
Continuam a castigar.
E os meninos continuam a brincar.

No Nordeste os heróis nascem com a agonia na rotina e com a superação nos músculos. Riem porque são heróis.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Para Márcia






por Luís César Padilha

A perda de alguém querido vem sempre acompanhada de muita reflexão. A saudade e o peso religioso da morte sempre nos atiram nos páramos das dúvidas. As forças que movem esse mundo ficam mais nítidas. As explicações se tornam mais óbvias. E tudo também pode ser o contrário.

Retornar ao final dos anos de 1980, de 1987 a 1989 para ser mais preciso, trouxe para meu convívio uma baixinha retada de olhos verdes expressivos e com uma habilidade para "resolver as coisas" invejável. Desde o primeiro contato, ela já se dizia jornalista e com precisão buscou sua escolha. Simulávamos situações comunicativas, eu, ela e Fariseu, três sonhadores, ou melhor, dois sonhadores e uma guerreira. Queríamos escrever bem. Márcia queria viver.

Autora dos aniversários do fim de semana, uniu a turma. Éramos em 1989 uma família muito bem comandada. Nossa matriarca me deu cinco aniversários em um só ano. E vivemos nas festinhas juvenis trocando sorrisos por piadas e curtindo os namoricos pueris de nosso tempo.
Aprendi a ler poesia. Consegui me ver poeta. Fariseu e Marcinha me fizeram acreditar na acessibilidade da criação artística. Eu que tinha em Renato Russo o máximo da expressão poética, agora conhecia Caetano e Gil, além de acrescentar as cantorias e outras vanguardas brasileiras em meu repertório.

Eu e Fariseu paramos na Faculdade de Letras da UCSal, enquanto Márcia foi direto à sua convicção: a Faculdade de Comunicação da UFBA. Rapidamente se estabeleceu no meio jornalístico soteropolitano, fazendo valer sua garra e sua segurança.

Depois da escola, em 1989, encontrei poucas vezes Márcia. Sempre a vi envolvida nos trabalhos regularmente. Foram quatro encontros talvez, mas em todos os encontros ela era a mesma amiga preocupada com todos, querendo rever todos.

Hoje, tentando descansar escutando as notícias de futebol, Mário Freitas, cronista da Rádio Excelsior da Bahia, me surpreende com a notícia do falecimento de Márcia Rodrigues, como que houvesse necessidade de me dizer. Não consegui mais dormi. Perguntei a mim mesmo se era ela. Fui ao único contato possível e, no orkut, ela já recebia mensagens de saudade.

Abrir as páginas do perfil de Márcia Rodrigues reflete o que ela foi.

http://www.orkut.com.br/Main#Scrapbook.aspx?rl=mo&uid=6828088171699189096

O melhor dela continua aqui.

Todos sabemos que ela não lerá, mas todas as mensagens traduzem a amiga, a matriarca. Para mim, o susto tinha que se transformar em homenagem. A passagem rápida dela por aqui merecia esta reverência.

Eu a reverencio.

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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

ENCOMENDA DE AFINS


Andava reflexivo com relação aos sucessos de relações amorosas. Via um misto de acaso e cálculos construindo cada ato de um jogo sem vencedores e sem esquema tático. Os vai-e-vem confundem os quereres. As escolhas desrespeitam as vontades mais profundas e atendem os apelos de uma parte.

Mexendo distraidamente no violão, as notas combinaram uma sonoridade e fui em busca dos acordes. Encontrei. Solfejei. Procurei palavras que traduzissem meu instante. Pensei no que disse e no que via na vida de um amigo. Ele amava, mas se desarmava. Entregava-se aos anseios mais elementares do viver machista paternalista. Ele esperou.


Encomenda de afins

(Luís César Padilha)

Tanto pra ser um fim que o mundo lhe ofereceu,

quanto pra viver um triz antes do retorno ao breu.


E foram tantas vezes vida,

tantas noites lidas,
e manhãs de amor,

em corpos de perfume insano,

copos de outros planos,

traços de tremor.


Foi pra ser feliz e o acaso lhe negou.

Insistiu em um assim sem segredos sem mentor.


E foram tantas vezes vida,

tantas noites lidas,

e manhãs de amor.

Seu corpo tem um sopro novo,

e o seu beijo probo
é reiniciação.


Lá vem a força ingrata

soprando o vento de um tufão

e o fogo de um carnaval.


Engolimos outra dose,
embriagamos com o grito solar,

pra aceitar o novo dia
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Chegada a outra noite,

seu beijo me entenderá

e reiniciará os sentidos.



Um colega leu os versos e, quando indagado sobre a qualidade, comentou:


- é... a vida sempre traz novas vidas... e um beijo pode reiniciar tudo.

Não respondeu, mas disse o que eu precisava ouvir. Assim eu me encontrei em Encomenda de afins. Estou diante de novos sentidos para a vida e de novas vidas para os sentidos.

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quarta-feira, 2 de julho de 2008

Curiosidades: O Sistema Solar

por Marcelo Silva



A explicação que atualmente é a mais bem aceita sobre a origem do sistema solar é conhecida como: Hipótese Nebular, desenvolvida em 1796 pelo físico e matemático francês Pierre Laplace, baseada nas idéias do filósofo alemão Emanuel Kant.

A Hipótese Nebular consiste em justificar a formação do sistema solar a partir de uma enorme nuvem de gás interestrelar que possuía um movimento rotatório. Essa nuvem é chamada de Nebulosa Solar.

A Nebulosa Solar, que era formada de gás e poeira de elementos químicos injetados no universo por reações produzidas em outras estrelas. Quando esse gás e poeira foi se aglomerando na gigantesca nuvem que girava, foi ocorrendo uma espécie de agrupamento dessas partículas, chamado de colapso, que se deu por ação da gravidade da própria nuvem e à medida que a nuvem colapsava, ou seja, que as partículas se uniam mais, sua rotação aumentava – algo muito parecido com o aumento da rotação de uma pessoa que gira sentada de braços abertos em uma cadeira giratória e tem a velocidade de rotação da cadeira aumentada quando encolhe os braços – com o aumento da velocidade de rotação a nebulosa foi adquirindo forma de “disco” o que justificava o fato dos planetas girarem em torno do sol no mesmo plano e na mesma direção.

A concentração de gás no centro da nebulosa solar daria origem ao sol, já os planetas se formariam do material que compunham o disco. Após o colapso da nebulosa apenas sua região central manteve altas temperaturas e o resfriamento das regiões periféricas da nebulosa implicou na condensação rápida do material que formou aglomerados de composições distintas que viriam a dar origem aos planetas.

Estes aglomerados iniciais que ficavam nas regiões mais próximas ao centro, perderam suas substâncias mais voláteis devido às altas temperaturas, nessas regiões formaram-se os planetas conhecidos como terrosos (Mercúrio, Vênus, Terra e Marte) nas regiões mais distantes do centro do colapso as baixas temperaturas dariam origem a planetas onde até mesmos substâncias muito voláteis se condensavam, esses aglomerados deram origem aos planetas gigantes gasosos (Júpiter, Saturno, Urano, Netuno).

Algumas características do Sol

O Sol é composto prioritariamente por aproximadamente 91,2% de hidrogênio (que ele utiliza como “combustível”), 8,7% de Hélio e 0,1% de Oxigênio e Carbono. Tem uma massa de 1,98 .1030 kg, o que equivale a mais ou menos trezentos e trinta e três mil, quatrocentas e trinta e duas vezes a massa da terra. È de fato uma esfera de gás quente que tem um diâmetro de aproximadamente 12,92 .105 km , só para ter uma noção esse diâmetro seria mais de três vezes a distância entre a Terra e a Lua.

Algumas Propriedades dos Planetas do sistema

Existem algumas propriedades que permitem conhecer melhor os planetas do sistema solar, essas propriedades seriam

  • A massa do Planeta; que pode ser calculada aplicando as leis de Newton e de Kepler. A massa do planeta tem relação direta com a sua influência no resto do sistema. O número de satélites que tem o planeta, o período de translação do planeta, as marés, tudo isso depende da massa do planeta.

  • Composição Química; que pode ser estimada a partir da densidade média do planeta – a composição química de um planeta revela sua capacidade de reter energia via efeito estufa, o que influencia na temperatura do planeta.

  • A distância do planeta ao sol; que é medida atualmente com o uso de radares, e determina a média da temperatura efetiva do planeta, pois a maior parte da luz que chega aos planetas provém do sol e como a temperatura depende essencialmente da luz a densidade dessa radiação depende da distância, ou seja, quanto mais perto um planeta está do Sol mais quente ele deve ser.

Alguns outros corpos

O Sistema Solar não é composto apenas pelo Sol e os planetas, fazem parte dele também uma enorme quantidade de corpos menores, que fogem ao propósito desse texto tratar detalhadamente, mas, como exemplos, temos os planetóides, asteróides satélites, anéis e cometas.

Tributo aos errantes

O termo planeta se refere àqueles corpos que vagam sem rumo. Na época que estes corpos receberam a denominação de planeta não se compreendia claramente seus movimentos aparentes no céu. Mas os grandes viajantes do sistema solar talvez sejam na verdade os cometas. Eles têm uma órbita elíptica muito excêntrica, quando estão no periélio (região mais próxima do Sol) suas órbitas podem se aproximar das órbitas de Vênus ou até Mercúrio, e quando estão no afélio suas órbitas ficam muito além da órbita de Plutão.

O Mais conhecido dos cometas é, sem duvida, o Cometa Halley, que leva o nome de um célebre astrônomo britânico, amigo de Newton, que em conseqüência da teoria da gravitação newtoniana propôs que os cometas também estariam presos ao sistema solar. Halley predisse que os cometas que apareceram nos anos de 1531, 1607 e 1682 eram na verdade o mesmo cometa, ele ainda previu o retorno do cometa para dezembro de 1758, porem não viveu o suficiente para ver se confirmar sua previsão.

O Cometa Halley tem período de aproximadamente 75,5 anos e a última vez que ele teve ao alcance de “olhos terrestres” foi em 1986, você arrisca prever a próxima aparição?



Bibliografia:

TARSIA, R. D; Astronomia Fundamental –Ed. UFMG, Belo Horizonte 1993.

NUSSENZVEIG, M; Curso de Física Básica - 1 Mecânica – Ed. Edgard Blücher. 1998

MACIEL, W. J; Astronomia e Astrofísica- Curso de extensão universitária – IAG/USP 1991




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terça-feira, 24 de junho de 2008

CAMINHO


por Claudinei Romão

Os passos são curtos
Curtos e firmes
Nenhum passo é igual

As pedras são vencidas
Uma a uma sem pressa
E mesmo as que foram
Ou serão vencidas mais
[de uma vez
Não serão as mesmas
Pois, elas são como as Ruas
Uma eterna mutação

Os passos, as pedras e as ruas
São literalmente iguais a mim
Curtos e firmes
Vencidos e mutáveis

Os caminhos percorridos
São únicos e fidedignos
Cada passo é um passo
E mesmo os caminhos e as pedras
Da minha rua toca-me
Igualdiferencialmente


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quinta-feira, 19 de junho de 2008

A SALVAÇÃO


por Claudinei Romão

Ela está chegando
Tão fria e cinza
Tão bela e poente

Eu a sinto como salvação
Eu vejo-me nessa névoa cinza

Tu és a cura do fracasso
Tu és a sede do alcoólatra
Tu vês o escuro do sol
Tu vês o paraíso de Hades

Sou igual a ti
Oh! Ser supremo
Impávido e risonho
Solidão do eu.

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terça-feira, 27 de maio de 2008

Donana e os piratas


por Luís César Padilha

Uma conversa, uma sentença, uma angústia. Donana disse que na loja do marido dela não venderia meu cd porque ele é pirata. Pirata? Sou responsável pela perda financeira de compositores, músicos, cantores, advogados, funcionários do ECAD, grandes gravadoras? grandes gravadoras... leio e escuto a todo momento que pirataria é crime... sou criminoso, grandes gravadoras?

Componho desde o 17 anos, período que comecei minha relação amorosa com as cordas. De lá pra cá, tenho compostas mais de 50 músicas. É um número pequeno para os 18 anos que se passaram, mas se medirmos o tempo destinado a essa dedicação, veremos que fiz mágica. É que há 15 anos divido a música com a educação e quem trabalha em educação sabe o tempo que ela toma da gente.

Donana não quis fazer nenhum tipo de retaliação. Ela foi apenas a voz da fiscalização. Raras são as leis fiscais escritas com interesse de valorizar o homem comum. O alvo de benesses legislativas sempre foi a pecúnia. Nas artes, a pecúnia está com a burguesia, desde o Renascimento, e ela continua ditando estéticas. Quem resiste ao mercado, fica à margem, no "underground", divulgado em pequenos grupos, no meio que Lobão denominou "Universo Paralelo".

O cd da Parnaso da Modernidade saiu, gravado música a música, após 6 anos de divulgação "underground". As capas foram produzidas com papel metro e impressão em computador caseiro. Os encartes foram impressos com ajuda de uma gráfica amiga, a Gráfica Rochedo, como cortesia. A impressão no corpo do disco é feita com carimbo. Tudo para não depender de grandes corporações, para manter íntegra a proposta artística. Conseguimos colocar nosso cd na praça, para vender mais ou menos duzentas cópias, sem precisar ser moldado, sem reverenciar os burgueses.

Quanto à pirataria, Donana equivocou-se em seu conceito. Seria pirataria se eu estivesse me beneficiando financeiramente da criação de outro. Eu não utilizei nenhuma criação de outro, a não ser poemas de domínio público, com direitos autorais liberados. Mas a indústria da música deve estar se mobilizando para impedir que o mercado fonográfico se torne dependente dela. Com o poder financeiro, ela conseguirá.

Particularmente, eu gostaria muito que alguém resolvesse fazer cópias do cd da Parnaso e espalhasse pelo mundo. Essa frase pode ser lida como um pedido.

E torço para que Donana curta nosso cd. Queremos muito continuar produzindo nossa arte sem interferência da indústria cultural, dentro do nosso universo, vendendo de mão em mão. Enquanto originalidade significar se vender para as indústrias, seremos corsários... e amaremos Donana.

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sexta-feira, 25 de abril de 2008

Quatro cantos de sonhos invioláveis


por Luís César Padilha

Novas circunstâncias entortam as pautas. O novo enredo é velho tormento. As chegadas me esvaziam. Quanto devo ser, enquanto me desentender, está proporcional ao que vou fazer no meu mundo e no mundo do outrem.


Os sonhos iniciados nos segredos de um olhar ao nada não são vividos isoladamente. Os sonhos não são tortos.

* * * * *

Na fuga dos espinhos, a rosa se chocou com a mão. De pétala em pétala, tentando resistir, ela se transformou em gotas de um vinho acre. Assim atraiu o desejo. Assim fez cair em riso pueril. Fatal. Fetal.

* * * * *

Sopraram fragrâncias para cá. Busquei em sóis e luas, em flores e corpos, em sombras e acasos... Só pude encontrar comigo. E nem tentei me esconder de mim. Foram os passos, os traços, as graças que me impuseram uma via. Caminho. Vou. Estarei. Mais algumas luas, entenderei. Mais alguns flagrantes, reiniciarei.

* * * * *

Os encontros explodem em coincidências, acasos e destinos. Quem não sonhou perdeu seu compasso. Quem não reuniu perdeu-se do mundo. Quem não se isolou perdeu-se de si. E não esteve em um dos quatro cantos gritados na estrofe.

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segunda-feira, 31 de março de 2008

O sol sem reino vira súdito



por Luís César Padilha


E, enfim, o súdito pôde ser...

A rainha converteu nuvens
em céu de luar estrelado.
Abriu mares onde
não se podiam navegar.
Fez música quando
forçaram silêncio.

Quando o doce suavizou,
aeronaves foram
estrelas cadentes...
E todos os pedidos se realizaram.

O súdito, desde então, existe.


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terça-feira, 18 de março de 2008

Guia



por Marcelo Silva

Guia

Guia-me
Até o seu mundo
Onde eu organize
Esse pensar

Guia-me
Até onde o louco
Seja compreendido
Num lance de olhar

Até onde as flores brotem
Em pedras nucleares
Que não sirvam pra matar

Guia-me
Até a essência
Do ar frio que me invade
E eu insisto em respirar

Guia-me
ao coração
Que eu sei que é seu
E olha comigo
Esse belo luar

Essa música foi feita para minha amiga Natalie cantar, mas ela saiu da banda por causa dos estudos e a música ganhou nova roupagem na voz de Tam, que também pegou a estrada. A música foi remodelada para Padilha cantar.

A poesia é forte e fala da ânsia do ser vivo em viver. Faz referência a coisas da vida, à utopia, à necessidade do sonho inatingível no agora para que se possa caminhar rumo ao amanhã. O primeiro título foi “A guia lua”, simbolizando a lua como algo intocável, inalcançável, imprescindível para uma noite de luar.

Mas existem muitos outros tipos de guia e para que eles nos guiem é necessário que confiemos neles, e a confiança, a crença, pode nos levar a um mundo justo, ao paraíso, à utopia.


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segunda-feira, 17 de março de 2008

A última carta do Rei Capitoi Gates



(os insurgentes que tudo pretendiam)


por
Erahsto Feelício

Ao longe do fosso já se encontra uma multidão. Vossa organização é tão peculiar... tão singular, que para meus generais – e apenas para eles – mais parece uma desordem generalizada. Não há precisão em dizer se existem oficiais. Daqui todos parecem soldados. Ouvi dizer que se revoltaram, se rebelaram, e ainda não se sabem suas pretensões. De tudo os dei: festas, missas, possibilidade de ter bons cavalos, terras liberadas para o cultivo um dia na semana, e até poder para decidirem questões básicas sobre as vilas. Por que a revolta? Fiz questão de me certificar que ninguém da cidadela do castelo pudesse chegar perto demais deles. Pedi ao Reverendo Vladmir Socialé que fizesse algo, e no sermão da missa as sábias palavras eram sobre a luta contra os insanos infiéis adoradores do mal, pois somente assim poderíamos construir o paraíso celestial planejado por Deus. Portão fechado, arma em punho, na muralha só hão guerreiros brunidos. Mandei o Mensageiro, Lorde Giorgi Libertu, com a bandeira branca, para conhecer as reivindicações deles e seus termos de paz. Eles tomaram a bandeira branca e me mandaram uma negra. O Lorde disse-me que todos eles reivindicaram tudo. Pelos céus! Não posso entender! Como reivindicam tudo? Proibi há muito tempo essa palavra, ou qualquer que tenha significado de totalidade. Eles não conhecem tudo, apenas parte! Perguntei quem são eles, o Lorde me disse que são todos. Esse “todos” soou de forma unitária, como se não pudesse atender apenas a interesses específicos de cada aldeão, de cada vilão. Como minar suas forças? Todos os espiões enviados não voltam, mas diferente das outras vezes, eles não mandam a cabeça dos espiões em bandejas. Há quem diz ter visto um espião entre a multidão. O General Fragmentu Marinho não sabe o que fazer, não há como assassinar os líderes, não há como distingui-los dos demais, eles também não aceitam desafios dos melhores homens, pois todos se intitulam os melhores homens. Existe o cerco, apesar de eles oferecerem comida a todos que, desarmados, saírem da cidadela do castelo. Há festas todos os dias, não homenageiam os santos. São pagãos! Estive montado em meu alazão a uma pouca distância deles e não me fizeram uma, sequer, petição. Uns falavam em derrubar o castelo e usar as pedras para construir jardins, outros dizem que a coroa não é nada. Espantei-me quando falaram que a insurgência seria para sempre, mesmo que eu me rendesse. Loucos! Meu exército marchará, pela primeira vez, contra pessoas que não lutam por terra, nem mesmo por menos impostos. Lutarei contra quem não quer meu trono, minha coroa, minhas terras ou minhas filhas? Eles não querem o reino, parecem não reconhecê-lo. Meu exército não foi preparado para essa luta. A única infantaria que mandei foi recebida com músicas, gritos de guerras, mas mãos amigas. O meu Herdeiro, meu primogênito, Democraceau Inácio discursou contando a história vitoriosa do meu reino. Os rebeldes falaram de um tempo muito próximo quando iniciou a vida deles. Desde que soube dos levantes mandei exterminar todos, mas ninguém nunca sabia sobre os revoltosos. Num ato de desespero mandei um falso escrito real que passava as terras para as famílias do reino e as ferramentas para seus utilizadores. Negaram ou era como se tudo isso sempre fora assim. São arautos do caos contra a sociedade do trabalho e da moralidade. Não hei de ficar parado, numa ultima tentativa de salvar meu reino, os atacarei até minha morte, e em meu testamento passarei todo meu poder aos líderes insurgentes e minhas terras a todos eles. Rogo para que aceitem! Porém eles criticam tudo, a abundância e a miséria. Caso aceitem, salvarei meu reino. Deixarei o Estado e entrarei no tempo. Pelo menos se a negação de tudo deixar!


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quinta-feira, 13 de março de 2008

Ainda sobre os trilhos


por Luís César Padilha

Hélio Valadão Júnior é um dos grandes poetas que já conheci. Não só por seus textos, com musicalidade própria e versos simples, mas também pela coerência entre a arte e a vida. Ele vive seus poemas.

Além do amor pela arte, dedicou um tempo de sua vida para pesquisar sobre Santo Antonio de Jesus, a outra paixão poética dele. Nos rumos da história de sua cidade, ele construiu grandes versos, ora elogiando, ora protestando, sempre mantendo seu olhar poético atento à construção do seu mundo.

Uma das mais belas paisagens do passado santantoniense é a da velha estação de trem. O saudosismo marca o texto de Valadão, lembrando o início do progresso comercial da cidade, viabilizado pelas locomotivas. 27º trem fantasma foi o título de seu primeiro livro de poesias, lembrando o que seria a última viagem para Santo Antonio de Jesus.

A segunda versão do poema é utilizada na nossa música Dark city e o 27º trem fantasma. O poema foi publicado originalmente no livro Torneiradas de mim. Eu cuidei de fazer a colagem musical, partindo de uma idéia musical que me foi passada por Marcelo e Andy. Modifiquei muito a música, em relação ao que me foi apresentado. O produto final me agrada muito. É uma das músicas de que mais gosto em nosso repertório.

O texto de Marcelo faz referência à morte como um estação que iremos descer a qualquer momento. Enquanto o texto de Valadão aborda a morte do trem nos trilhos de Santo Antonio de Jesus.



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Dark City e o 27º Trem Fantasma


por Marcelo Silva

Dark City e o 27º trem fantasma
(Marcelo Silva / Hélio Valadão Júnior)

O trem leva a todos...
Um suspiro na porta dos fundos...
E o prazer não mais satisfaz.

Nem o grande tesouro
Nada mais tem valor
E o besouro da solidão
Decompõe todas as minhas vontades.

“Nas loucuras que sonhei acordado, quando não adormecia nas estações, minha fumaça saltava as nuvens avisando. As comunidades festejavam minhas chegadas. Eu não cansava nas ladeiras, nem temia túneis escuros, nem imaginava que pudesse vir a ter ferrugem nos trilhos.”

O sol se pondo impõe
Que o desejo não volte mais
Porque o prazer não mais satisfaz.

O trem leva a todos
Disseram me traria alguém
Agora espero um anjo
Fúnebre, sinistro e mórbido
Em forma de trem


Quem não gosta de viajar? Viajamos muito, mesmo sem sair do lugar.

Essa música fala da morte, a viagem para o incerto e usa a metáfora do trem para a vida. Trato a vida como um trem, cheio de tudo de que se precisa para viajar e cheio de armadilhas. Muitos são arremessados para fora do trem em direção ao incerto. O desejo do fim da viagem é o desejo pela morte, que é certa, mas que deve esperar que o enredo da vida se complete, o que nem sempre acontece. A morte, então, é um mecanismo de justiça social, que abre novas vagas no trem. Essa música foi um fruto das minhas viagens estudando em Feira de Santana e trabalhando em Itaberaba correndo os riscos das viagens, e vendo acidentes na BR-116. Acaba se configurando um tributo às vidas que ali foram interrompidas e uma reflexão sobre a efemeridade da vida.


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domingo, 2 de março de 2008

ESCUDOS


por Luís César Padilha

Escudos é um poema que compõe o meu livreto Luvas na sua página sete (número que povoa minhas poucas superstições). Surgiu em uma fase de esperanças e dúvidas, no meio dos estudos pré-vestibulares e das inseguranças que o capitalismo traz a essa etapa. A fase também era de elevação de auto-estima nas relações humanas e de busca por uma beleza, a fim de realizar as mais instintivas vontades e as mais emotivas.


Não havia lido tanto Sartre, nem Shakespeare, li A peste de Camus, mas alimentava meu desejo de auto-entendimento. O meio contrariava qualquer perspectiva de religiosidade pura, visto que o acesso ao capital exige individualismo. Nesse tempo, eu tinha um pensamento (e tenho) bastante cruel em relação à humanidade: "o que o dinheiro não compra improvisa".

Partindo desse lampejo filosófico, no poema Escudos eu falo de amor. Inicialmente, o supremo bem, incomensurável por certezas ou por pecúnia, é alvo de sutis mudanças em seus conceitos. Reflito sobre o peso dos sobrenomes (o título é uma referência aos brasões de famílias nobres) nas diversas escolhas, principalmente nas amorosas, refletindo o rancor diante de pequenas perspectivas, da seleção da sinceridade.

E a igualdade, que em minhas leituras políticas e religiosas é o grande objetivo a ser alcançado pela humanidade, só se enxerga na dor.

.....

Escudos


Parto

Limite é o quarto

Um dia cresço
E aprendo o terço

Rosto

Exposto ao gosto

O gosto é o preço

E o endereço


Salto

Do farto fato

De ter apreço

Se não mereço


Escuro

Contínuo muro

Quando enalteço
O que já esqueço


Corpo
Mediante ao morto

O corpo é o gesso

E o recomeço



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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Cinema

por Antonio Márcio


A noite se faz em graça
Enqüanto busco na poesia;
Brasileiros alegria;
O retrato de uma raça.

Na boemia doméstica
Noturno escrevo meu roteiro cinemático
Banhado pela estética
De teu solene beijo dramático.

E além de tudo,
Uma trilha sonora ecoa em minha mente
Deixando de lado a surdez
Que não ouve o onipotente.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

As Luzes dos vaga-lumes III


por Marcelo Silva


De onde vem a luz dos vaga-lumes? Porque eles piscam? Porque produzem luz sem esquentar? Perguntas como essas podem surgir o tempo inteiro quando observamos estes curiosos animais que são capazes de despertar muita fascinação. O processo de produção de luz em animais é chamado de bioluminescência e ocorre em alguns outros animais além dos vaga-lumes. Neste inseto a luz produzida é oriunda de uma reação bioquímica que libera energia em forma de fótons, chamamos este processo "oxidação biológica", que em resumo se constitui da transformação da energia química em energia luminosa sem a produção de calor, por isso é chamada de luz fria. Estas luzes produzidas podem variar um pouco de cor a depender da espécie de inseto, ela serve para fins reprodutivos, como facilitadores na atração sexual, bem como instrumento de defesa ou para atrair a caça.

“A produção de luz ”

Uma proteína chamada de luciferina, em contato com o oxigênio, é oxidada na presença de ATP (trifosfato de adenosina), ocorrendo assim a formação de uma molécula de oxiluciferina, que é uma molécula energizada. Quando esta molécula perde sua energia de exitação, ela passa a emitir luz. Essa luz é chamada de luz fria, pois cada elétron que retorna a sua órbita de mais baixa energia, libera a diferença energética em forma de luz e não de calor.

A energia liberada sob a forma de luz por bioluminescência pode ser calculada pela fórmula:

E = h . v (1)

V = c . λ (2)

Onde:

E = energia luminosa (KJ/mol de fótons)

h = constante de Planck

ν = freqüência

c = velocidade da luz

λ = comprimento de onda (nm).

A equação (1) evidencia o caráter quântico da produção. Ela diz que a energia carregada pela luz é proporcional a uma constante e só é emitida em termos de múltiplos dessa constante, ou seja: a luz não pode carregar qualquer energia, mas somente energias que são múltiplas de h (6,63.10-34 J.s). Esse valor, tão pequeno para essa constante, limita a nossa capacidade de observar fenômenos quânticos ao nosso redor.

A bioluminescência só ocorre na presença da luciferase, que é a enzima responsável pelo processo de oxidação. A molécula de luciferase é composta por uma seqüência de centenas de aminoácidos, o que determina a cor da luz emitida. Estima-se que para cada molécula de ATP consumida durante a reação, um fóton de luz é emitido. Logo é possível ter uma noção da quantidade de moléculas de ATP consumidas na respiração desse inseto baseado na quantidade de luz emitida.

Pode se configurar um avanço científico fazer com que bactérias que não são bioluminescentes passem a emitir luz, isso facilitaria o seu acompanhamento dentro de um organismo. Técnicas de genética estão sendo utilizadas para tal finalidade. Para isso, é necessário isolar e multiplicar os genes dos elementos presentes no organismo do vaga-lume, por exemplo, e inserir dentro da bactéria e esta passa a emitir luz como ocorre nos vaga-lumes.

Mesmo com tanta coisa interessante em relação aos vaga-lumes, eles estão sendo ameaçados essa ameaça é configurada pela a iluminação artificial, que pode interferir diretamente no processo de reprodução da espécie que podem sofrer perigo de extinção.

Referências

CHESMAN, Carlos – Física moderna: experimental e aplicada/ Carlos chesman, Carlos André, Augusto Macedo. 2ª Ed. Livraria da física, SP 2004.

NUSSEZVEIG, H. Moysés, Física Básica, 1ª Ed. vol-4 Editora Edgar Bulcher, São paulo 1998.

OLIVEIRA, Jarbas de- Biofísica para ciências biomédicas, 2ª Ed, Edpucrs, Porto Alegre 2004.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

As Luzes dos vaga-lumes II


(Marcelo Silva)


No instante posterior a sua formação, o universo conteria luz e partículas elementares...


Hoje é dia de ir ver a luz

O medo?
É, existe medo...
Pois, a minha companheira sombra me deseja.
Curioso é: Eu desejo a sombra, mas também desejo a luz.

Salto pelas Janelas e caio nos jardins
Junto às flores coloridas que não foram feitas para você
Nem você é para mim.
E a lua ainda é lua cheia
Quero sua luz que permeia as paredes
Que profetiza a dor e a sede
Reconhece o princípio e o fim.

Hoje decidi ver a luz
Mas ela virá até aqui
Mais rápido que qualquer pensamento
Maior que o mar e o vento
Somos Luzes de lua assim!


Caminho da roça

Caminhado na escuridão
Junto à cerca pra não perder o rumo
Passo
Tão efêmero
Passo
Tão curto
Laço
Tão bruto
Abraço
Peço
Acesso
Espaço.
Viajo a idéia bateu
Não paro nem vejo
Nem respondo ainda
Quem sou eu
Apagaram-se os últimos vaga-lumes.


A rosa do momento (é cor sem luz)

Perdi
Em um bosque escuro
O meu eu impuro
Que chamam de espírito.

Andei
Com tantas bolhas no pé,
Perdi também a fé
Em mim - só um delito.

Vi
A morte estava perto,
As árvores num cortejo funesto
Eu quase estive morto.

Acabei
Na lama da dúvida eterna
Sobre a sabedoria interna
Com sanguessugas lotando meu corpo.


O espetáculo

São os passos para o fundo do quintal
Onde as lágrimas festejam a fuga da prisão que é o corpo
E a liberdade é encontrada se vaporizando no ar.

Lá no fundo o brejo é frio e umedecido pela lágrima
Mas a alegria reina e começa o espetáculo
As rãs e cigarras fazem o fundo musical
Em sua dança os vaga-lumes pulsam como dedos apertados na porta
E saem de cena um a um, pela bengala da língua do sapo
Sem que haja um funeral.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

As Luzes dos vaga-lumes I

(Marcelo Silva)

Estava caminhando um dia desses por ai meio sem rumo, era um dia quente e, mesmo estando o sol baixo no céu, já próximo ao poente a temperatura do ambiente, tão mais alta que a temperatura do meu corpo, ainda incomodava. As ruas causam mesmo muito desconforto, tudo que a gente vê, ouve e sente deve mesmo nos incomodar, ainda assim acredito que as ruas com todos os incômodos devem ser um ambiente familiar ao individuo livre, desde que ele tenha um porto seguro para regressar, um local de refugio mental onde possa ter garantida sua dignidade, sua autonomia, existir quanto ser pensante e indivíduo autor dos rumos da sua história social. Essa característica do lar pode ser sua marca de humanidade. A relação entre a pessoa e a rua deve ser unilateral submissa ao controle da pessoa. Ninguém deve ter a rua como a única opção de sobrevivência, mas sim como uma opção de convívio social, de contato com o mundo, de organização e manifestação pública em benefício dos interesses comuns.

Sentei à sombra de uma árvore, em um meio fio recém pintado de cal - recentemente essa tem sido a obra de maior destaque realizada pelo poder público municipal - e comecei a refletir. Pensava quanto era cruel a subserviência sugerida (imposta) pelo grandes mecanismos de comunicação ao povo. As pessoas são convidadas a serem felizes, estando sempre iguais aos modelos de beleza, de não loucura, simpatia, popularidade, que no final das contas promovem uma escravidão sem correntes visíveis, logo difíceis de serem quebradas. As pessoas não percebem que só serão “felizes” se consumirem, se gastarem e se assistirem até o fim de suas vidas os Babacas, Burros e Bestas que existem por aí. Mas em debate comigo mesmo resolvi tomar as dores do opressor. E rebati meu pensamento da seguinte forma:

Não pode ser a mídia considerada a responsável pela trilha apocalíptica que caminha a passos largos. A humanidade, as pessoas escolhem os seus rumos. Quem assiste diariamente a quatro novelas e lê um livro a cada década, faz isso porque quer. Quem sofre mais ao ver o timão do coração ir pra a segunda divisão que ao ver uma criança suja passando fome na rua escolhe o que lhe incomoda mais. Quem escolhe passear no natal com a família no shopping e ver o Papai Noel com aquela roupinha polar distribuindo presentes para todas as crianças do mundo escolhe fazer isso.

Mas essas posturas louváveis não sofrem a influência apenas da mídia, mas de outras entidades, por exemplo a igreja (religiões institucionalizadas), a família (tradições sociais locais) construídas ao longo do tempo em um cabo de guerra tendo como característica uma corda com uma parte forte e outra fraca.

Isso aliviaria um pouco a responsabilidade da mídia. Afinal de contas assistir a novelas não é algo tão mal, existe muita ludicidade e fantasia em viajar sem sair do lugar em uma trama bem feita; o futebol é esporte e lazer, algo que interfere na qualidade de vida das pessoas, todos devem ter o direito de se emocionar com o esporte e praticá-lo; e o passeio em família é sempre bom, o sorriso de uma criança ao ganhar um presente é algo sem preço. As pessoas não precisariam da pressão dos meios de comunicação para quererem fazer algo que já seria bom para elas. Além do mais muita coisa popular entra na mídia porque se torna vontade do grande público, e ganhar espaço meio que ao contragosto das classes altas e “cultas”. Por exemplo ritmos musicais populares que nascem na periferia tipo: Calipso, Arrocha, etc. devem descer goela abaixo, causando náuseas no “bom gosto” das elites.

Já escurecia e eu ali embaixo da árvore e em cima do meio fio, olhava as pessoas voltando para casa, andando rapidamente sem olhar umas às outras, sem querer saber o que se passa com o outro sem dedicar um minuto de reflexão ao planeta onde tem suas raízes fincadas. Estas pessoas estão com suas bolsas, seus pudores e suas paranóias e não percebem que tudo isso é programado para desmobilizá-las. Não teria realmente problemas em assistir a novelas, se estas não fossem tão tendenciosas, antropocêntricas imprimindo os valores de uma cultura em detrimento de outras, fingindo uma interatividade entre a arte e o público, impedindo as pessoas de dialogar profundamente com o objeto de contemplação, não dialogamos com os periódicos globais, não discordamos nem concordamos, nem argumentamos ou construímos, pronto a questão é construção, se o povo gosta tanto de novela porque as pessoas não criam suas próprias novelas? Imagine como seria se você fosse na casa do seu vizinho para ler a novela que ele criou ou para mostrar a sua. No futebol, sim, as pessoas não apenas torcem para seus times, como elas jogam, mas o futebol tem muitos problemas, primeiro alimenta o sonho de muitos sobre a possibilidade de fama e dinheiro quando isso é uma realidade para poucos, também coloca em muitos casos a paixão pelo futebol que move uma indústria milionária para os torcedores como superior a outros valores de interesse coletivo. Quanto à miséria do Papai Noel, não se trata de não querer ver uma criança feliz, o grande problema está em associar a felicidade ao consumo, a compra desnecessária e desordenada gastando energia e recursos naturais que já estão fazendo falta ao planeta, e a natureza vai cobrar, isso para não falar das neuroses causadas na cabeça da maioria que não tem acesso nem se quer aos itens fundamentais para sua sobrevivência, imagine para uma extravagante comprinha de natal, fadados então pela lógica do sistema à infelicidade. Portanto não se pode atribuir ser feliz ao consumo.´as pessoas voltando para casa, andando ra

Mas as pessoas continuavam a passar e eu, corroído de raiva, de ódio, via vaga-lumes rodearem a minha cabeça. Não tenho raiva do povo, não posso ter raiva da plebe, mas posso ter raiva da globo e afins e principalmente dos poucos canalhas que sustentam seu luxo e sua pompa as custas da escravidão desse povo da degradação do planeta. Vi muitos vaga-lumes porque minha voz não ecoava, porque muitos camaradas que pensavam como eu sucumbiram ao cansaço, ao governo, ao poder. Mas anseio e trabalho por dias melhores, pois acredito que essas luzes de vaga-lumes possam ser mais que uma mera alucinação, fruto da minha indignação, acredito que elas possam ser uma luz de esperança!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

OURO

por Luís César Padilha

(ilustração: obra de Dudu Cruz - Ovos de ouro - feita c/caixa dourada de ovos de galinha)

Algumas pessoas acreditavam que a língua inglesa era a mais apropriada para se fazer rock. A explicação para isso era a musicalidade das pronúncias e a sintonia entre o vernáculo e a tendência musical. Eu não aceitei a explicação. Eu não admitia que à criação artística fosse imposto qualquer limite. E isso me conduziu a um mundo de reflexões.

Cheguei a algumas conclusões, mas a que interessa para o presente texto relaciona a beleza à estranheza. Eu pensei que as pessoas gostavam de cantar e ouvir em inglês porque era estranho para nossos ouvidos, fugia da mesmice sonora das falas do dia-a-dia e conduzia mais para o universo sonoro. O ouvinte não ficaria decifrando signos lingüísticos e se fechava no univereso da sonoridade.

Isso me fez pensar que um poema escrito com palavras pouco usuais, mesmo sendo do nosso vernáculo, causaria o mesmo efeito. Assim, comecei a elaborar o poema, buscando palavras difíceis e sonoras.

Associando ao tema de fim do mundo causado pelo ser humano, escrevi sob a denominação Sábio agônico. Havia estrofes iniciais que traduziam exatamente o desentendimento do eu-lírico frente as atitudes humanas contra eles mesmos. E foi transformado em música com a primeira parte.

O poema ficou guardado por dois anos. Quando resolvi publicar o livreto de poesias "Luvas" quis incluir o poema Sábio Agônico, mas ficou apenas a segunda parte e sem o nome de origem. Na seqüência do livro, há outro poema que também estava sem nome. Ouro seria o outro, este seria denominado Mortais. No momento de enviar para a gráfica troquei os nomes e assim ficou.

SÁBIO AGÔNICO

I- Agonia

Não entendo esse sopro
Não entendo esse corpo
Não entendo esse rosto
Não entendo esse fosso
Não entendo esse ismo
Não entendo esse cismo
Não entendo esse cisto
Não entendo esse cristo

Eu entendo este sopro
Eu entendo este corpo
Eu entendo este rosto
Eu entendo este fosso
Eu entendo este ismo
Eu entendo este cismo
Eu entendo este cisto
Eu entendo este cristo

II- Ouro

É mais um mito.
Enquanto a ápis martiriza na colméia,
a orbe magna conjetura o desemboque
e o reboque enfatiza a palidez.

É mais um giro.
Os segredos, ardorosos ao descaminho,
despertam a cutis da ninfa imponente,
estagnada no divã crepuscular.

É mais um grito.
A júdice cromática das sete faces
sucumbidas no derradeiro juízo
é pusilânime, mentirosa e íntegra.

sábado, 26 de janeiro de 2008

EIS


por Luís César Padilha
Quando comecei a compor Eis, não tinha a menor intenção em transformá-la numa música. Antonio Márcio com sua percepção refinada de melodias, foi quem encontrou o caminho. Por incrível que pareça, Eis é a união de três poeminhas escritos em momentos completamente diferentes e foram compostos na ordem apresentada na música. Parece ter sido criada em algum outro plano, já que a espontaneidade foi a essência do resultado obtido. Para completar, a música e os arranjos são muito parecidos, quase o mesmo, desde a primeira execução em ensaios, mesmo tendo passado pela influência criativa de músicos diferentes.

O primeiro dos poemas, Passas, foi construído em uma caminhada que eu fazia entre o Bairro Santa Rita e a Praça Padre Mateus em Santo Antônio de Jesus. No meio do caminho, um garoto atravessou em minha frente e mudou seu semblante do riso ao choro em questão de segundos. Ele saiu chorando de meu caminho. Mas minha reflexão o construiu de outra forma. Lembro-me de ter retornado para casa só para escrever aquilo que estava repetindo em minha mente. E os quatro versos foram escritos, com a sensação de que havia acabado o poema.

O segundo poema é fruto de uma auto-análise. Era o momento de dúvidas, principalmente com relação ao futuro de um jovem que ainda não havia aprendido o trabalhar. O sentimento de culpa e a vontade de independência repetiam uma angústia interior que simulava um sofrimento. E todas as manhãs, acordava cedo para nada... voltava a dormir. Foi então que escrevi uma determinada frase, repeti a mesma frase e achei que ali o poema terminaria com o efeito de continuidade. Finalizei, então, Mãos sujas.

A terceira parte de Eis é a primeira parte composta em música. Brincando com o violão, encontrei uma seqüência melódica e logo cuidei de encaixar uma letra. Achei tão impressionante o efeito que não parava de repeti-la mentalmente. Parecia que já a conhecia.

Com Ironia pronta com letra e música saí com vontade de mostrar para alguém. Fiquei em uma pizzaria sozinho, quando vi passar em uma moto Antonio Márcio. Ele estava na garupa de Abílio e com um violão. Eles sentaram à mesa e, entre uma cerveja e outra mostrei para Marcinho a música que havia feito. Abílio também colaborou muito com uns poemas eloqüentes de improviso àquela noite se transformar em histórica. No dia seguinte, estava na casa de Antonio Márcio, começando uma superprodutiva parceria musical e de estudos informais. Ficou por conta dele o encaixe entre os três poemas e as melodia que eu passei.

Saí da pizzaria com a impressão de que faltava algo na música para complementá-la. Uma tarde na casa de Antonio Márcio foi o bastante para complementar a criação. Daí em diante, Eis foi música executada na Massaricus Tropicalius, nas boemias com a turma da Conexão Mafiosa (Jaiminho, Kiko, Ênio e Márcio), Junior Quereto, Almir Côrtes e em muitas apresentações minha com Marcinho naquelas canjinhas facilitadas pelos amigos mais competentes.

Eis

I – Passas
Tinha um menino em meu caminho
Ele lacrimejava pedras de calçamento,
Cantava as notas do momento
E minava o riso de um novo tempo.

II – Mãos sujas
Nasce mais uma manhã e o homem sofre.
Nasce mais uma manhã e o homem sofre.

III – Ironia
Pediu tudo que não quis pedir.
Falou tudo que não quis falar.
Morreu só porque não quis morrer.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Anedota com scotch no gabinete



por Luís César Padilha

Quando os primeiros raios solares o iluminaram, ele era o mesmo operário implorando um olhar. Dedicar-se sempre foi obrigação. Contentamento é estabilidade no emprego. Sempre fez jus a elogios. A única atenção foi por erro de inexperiência.

Quando os primeiros vales credores o especularam, ele era o mesmo operário tateando tecidos. As horas consomem. Dores do agora. O talvez do amanhã é agouro do outro. A mesma biografia de outrora em nova geografia. O limpo se faz inútil. O ser do ser perece frente ao crer no ter. O homem tem que ser máquina.

Quando os primeiros ares de revolução o contaminaram, ele era o mesmo operário implorando por um ouvir. Debates. Leituras. Conjecturas. Leituras. Ações, enfrentamentos. Subversões. Quanto mais seu discurso se tornava original, era mais perigoso, era mais importante. Prescindível. Fundamental. Mudança isolada é loucura social.

Quando os primeiros lapsos de confiança o impregnaram,, ele era um operário farejando soluções. O conforto mutila a classe. A luta camufla a farsa. O direito é piso falso. O discurso coletivo não convence. As conquistas pessoais são poderosas. E não há mais.

Quando os primeiros golpes de traição o atingiram, ele era um ex-operário implorando sabores. A consciência provoca isolamento. O único discurso indefectível da pecúnia. Incontestável. O cruel lado oposto é ladeira abaixo. Verdade ilógica nos canais de comunicação! Loucura sábia sob os viadutos!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Lapso de sortilégio


(Luís César Padilha)


Avisaram que a noite chegaria rápido. Pensou se viria a escuridão ou as estrelas. O baile era longo. Descortinou sua janela voltada para o futuro e não enxergava horizonte. Mesmo assim, começou seu caminhar em busca de um não sei o quê que nunca encontra e não pára de buscar. Aceitou e cumpriu a rotina. Seguia os passos de sempre e deparou-se com a pele morena, com os cabelos cacheados. Depois foi flor no jóia. A flor disse desde que. O jóia disse assim. Ela falou em luar. Ele insistia em números. E encaixaram seu olhares, vislumbraram enxovais e calcularam fins de semana. Sorria sentada; em pé, manquejava. Sorria sentado; em pé, desertava. Disse que a noite chegou rápido e não ouviu que os bons momentos faziam esquecer o tempo. Antes de retornar para a linha reta, passou pela festa. Distraiu-se com o tiro ao alvo da esquina. Engoliu litros de própria saliva. Ainda caminhou sem colher pedras pelos sapatos. Percebeu um x ao olhar pra trás e não pesou calcular. Contemplou mais uma vez sua janela sem horizonte. O poste em frente apagou.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Dor de visionária


O trecho a seguir foi extraído do livro Santo Antônio de Jesus, sua gente e suas origens de autoria de Hélio Valadão.

"... dia 11 de dezembro de 1998, às 11 horas e 45 minutos aconteceu a maior tragédia de todos os tempos em Santo Antônio de Jesus e, segundo comentaristas da televisão, o maior acidente com fogos acontecido no país.

Dessa vez o estampido foi muito mais forte, ouvido até nas cidades mais próximas. Toda a população ficou alarmada e correu para o bairro de Juerana, próximo ao local onde acontecera a explosão. O número de feridos foi tão grande que ocupou o hospital local, os hospitais públicos de Salvador e, ainda, o Governo teve de pedir auxílio aos médicos dos hospitais particulares. Os corpos eram transportados aos montes a toda velocidade para a capital. O governo foi omisso todo o tempo. Depois que ocorreu a tragédia ele foi extraordinário, cumpriu seu dever. Mas, apesar da sua eficiência em socorro às vítimas, faleceram 64 mulheres, entre as quais 25 menores de dezesseis anos, uma delas estava grávida. Os médicos conseguiram salvar a criança. Um jovem apresentou-se como seu pai. Exigiram-lhe um exame de DNA que confirmou a sua paternidade. Sabe-se que pai e filha residem hoje na ilha de Itaparica e que ela foi batizada com o nome "Vitória".

[...]

Coincidência, uma das vítimas, Fabiana Santos Rocha, menina de 14 anos que faleceu juntamente com suas duas irmãs, Adriana e Mônica, iria crismar-se no domingo vindouro e algumas semanas antes da morte ela escreveu a seguinte poesia:



Quando eu me chamar saudade

Sei que amanhã, quando eu morrer,
os meus amigos vão dizer que eu tinha
um bom coração.
Alguns vão chorar e me homenagear.
Mas, depois que o tempo passar,
nem vão se lembrar que eu fui embora.

Por isso eu penso assim:
Se alguém tem algo a fazer por mim,
que o faça agora.
Dê-me flores em vida, carinho e
mão amiga para aliviar meus "ais".
Porque, depois que eu for embora, me
chamarei "saudade", não preciso de
vaidade, quero paz e nada mais."